8 de ago de 2016


Quando a mãe dançou no ballet

Era véspera do Dia das mães. A professora de ballet da minha filha - uma menina nova em idade, mas cheia de idéias inovadoras - convidou as mães das alunas para uma aula especial.
Em uma bonita escola de dança, com salas grandes espelhadas, a professora se explicou. Disse que a proposta de nos chamar ali, naquele dia, era a de promover uma experiência diferente para as pequenas alunas.
No dia a dia de suas aulas, ela podia observar que, no imaginário daquelas pequenas meninas, nós, suas mães, éramos o grande modelo para elas. E, portanto, ela gostaria de fazer, naquele dia, as admiradas dançarem diante dos olhos espantados de suas pequenas admiradoras.
Confesso que ouvir aquela proposta me deixou apreensiva. Dançar na frente da minha filha? Isso me pareceu um tanto desconfortável... Mas, vamos lá!
Abrindo um parênteses.
Meu grande sonho de menina sempre foi ser uma bailarina. Ainda pequena, me lembro de ficar imóvel diante da pequena televisão catorze polegadas, ainda de tubo, da sala da casa de meus pais, admirando boquiaberta os saltos e piruetas executados com precisão em apresentações de ballet clássico profissional. Se as saias fossem daquelas mais longas, que acompanhavam as pernas da dançarina (e que, portanto, não eram do estilo toutou) tanto melhor!
Cheguei a fazer alguns meses de ballet na infância, mas logo parei. Não sei ao certo porquê, nunca insisti para voltar. E segui crescendo com esse sonho infantil povoando o meu coração.
Fechando parênteses.
Por conta dessa história pregressa, confesso, um tanto envergonhada, que dei meu máximo naquela improvisada apresentação de mães. Queria parecer bonita e admirável para minha filha! Levei a sério e me esforcei para fazer os movimentos da melhor maneira possível, seguindo direitinho às instruções da professora. Fiz de tudo para me lembrar das aulas de ballet que fiz depois de adulta! (uma tentativa de diminuir minha frustração infantil de nunca ter colocado nos pés uma sapatilha de pontas). Mas, ao que tudo indica, não fui bem sucedida.
Ao final da apresentação, fui ao encontro da minha filha, ansiosa para saber suas impressões.  Olhei para ela com aquele olhar infantil que ela, tantas vezes, me olhou, buscando aprovação, admiração ou, simplesmente, um apoio para seguir adiante. Naquele momento parecia que eu não era a mãe e ela minha filha. Nossos papéis se inverteram e era eu que estava ali, procurando no seu olhar, a aprovação por algo que eu tinha feito. Torcendo para encontrar nele um carinho ou algum indício de aceitação.
Mas minha filha, sábia como sempre, não correspondeu às expectativas infantis de sua genitora e logo me deu um choque de realidade, me colocando de volta ao meu lugar de mãe, adulta, mulher crescida. “Você estava ridícula mamãe! kkkkkkkk!”.
                                                                         ***
Filha, você estava certa. Sua mãe estava mesmo ridícula e desengonçada! No vídeo gravado pela mãe de sua amiguinha isso ficou claro e nítido. Mais até do que eu gostaria de admitir! Acho que a vida foi gentil comigo por ter me levado para outros rumos que não o da dança pois, muito provavelmente, eu teria sofrido bastante com o grande desequilíbrio que, certamente, eu iria encontrar entre o meu esforço e minha possibilidade de realização.
 Sabe filha, foi engraçado eu ter me dado conta, nesse acontecimento tão banal, de que você não é a única que me olha buscando admiração. Eu também desejo ser admirada e ser gostada por você! Apesar de adulta e já crescidinha, eu também tenho, lá no fundo, algo de infantil. Que procura ser aceita diante de seus olhos. Tenho que te confessar, filha minha, que dancei diante de você dando o melhor de mim! Como se estivesse diante de um renomado crítico de arte! E me dei conta do quanto olhar de quem eu amo continua sendo importante para mim, mesmo depois de grande.
Refletindo aqui vejo que, muitas vezes, esse olhar tem mais peso do que todo reconhecimento que o mundo lá fora por nos dar. E que não há nada melhor para mim do que ser escutar um elogio dos meus pais ou do meu marido. Ainda hoje, do alto de meus quase 40 anos! Confesso que acho isso muito curioso. Como, mesmo crescida, ainda continuo buscando o olhar de aprovação daqueles que eu mais amo. Como se eu fosse ainda uma menina de 6 anos de idade...
E fico pensando, minha filha, se eu, como sua mãe, serei capaz de te oferecer o tipo de olhar que você necessita para crescer confiante e segura de si. Para ter força e coragem para seguir aquilo que te faz bem. Para escutar o seu desejo e trilhar o caminho que for agradável ao seu corpo e ao seu coração.
Prometo que vou me esforçar mas já confesso, de antemão, que tenho medo de não conseguir... E já estou tentando me acostumar com a idéia de que meu olhar não será suficiente para você e que, durante sua vida, você precisará encontrar outros que te completem e te façam sentir especial.
Por ora, o que posso te dizer é que você não precisa fazer nada para eu te admirar. Suas existência diante de mim já é motivo suficiente de gozo e contentamento. O jeito que você anda, o jeito que movimenta as mãos para argumentar. O jeito que você franze sua testa quando está prestando atenção em algo que te interessa. O jeito que você dorme e o rostinho inchado que você acorda. Só isso é suficiente para eu ter vontade de te olhar, te beijar e te abraçar até o final dos meus dias.
Por fim, te peço desculpas, minha filha por esses momentos onde, distraidamente, eu esqueço do meu papel de mãe e me comporto como se eu fosse a filha... E te agradeço por você sempre estar atenta para me lembrar de quem é quem nessa nossa linda e intrincada relação...


Isabel Coutinho é psicóloga, mãe de 2 filhos e autora do livro MÃE EM CONSTRUÇÃO: reflexões, angústias, desafios. Dash Editora.




22 de jul de 2016




Perdas de mãe


Era uma vez uma mulher que gostava de voar pelos céus. Loira, alta, esguia, andava sempre muito elegante em seu tailer escuro, sapatos de salto e cabelos presos no alto da cabeça. Discreta, sabia ser firme apesar do tom baixo e pausado da voz. Esse era (e ainda é) seu grande charme: uma voz que consegue ser assertiva, doce e suave ao mesmo tempo. Que diz com seriedade, sem deixar de ser amável. Que revela uma mulher com personalidade e presença, sempre envolta em uma bruma de extrema tranquilidade.

Ela tinha por volta dos trinta e não queria ter filhos. A vida no ar não combinava enjôos, barrigão, leite vazando, viroses repentinas. Muito menos com muitos dias ausentes por esse mundão afora!

Trabalhava na primeira classe de uma grande companhia aérea internacional, assessorando pessoas importantes e poderosas. Era extremamente valorizada por sua habilidade, gentileza e experiência para lidar com esses passageiros especiais. Nas horas que estava de folga, tinha uma vida familiar e social intensa. Namorava um rapaz legal, também dos ares. Eles se entendiam, se gostavam. Tudo estava bem e ela vivia feliz.
 Até que os caminhos da vida quiseram que ela tomasse outros rumos e que seu ventre dessa à luz a uma filha linda, de olhos claros vivos e inquietos.

                                                                        ***

Meses depois do nascimento, tentou retomar a vida profissional. Como a família vivia em outra cidade, contratou uma babá que pudesse cuidar da filha em sua ausência. A cada novo vôo, saía de casa de coração apertado, um tanto dividida entre a paixão por voar e aquela linda bebezinha que, a cada dia, conquistava mais seu amor. Felizmente, quando estava lá em cima, nas alturas, envolta pelas nuvens, se sentia plena novamente. E o aperto no coração se afrouxava, dando lugar daquela sensação boa de fazer o que se gosta...

Num desses dias comuns, à caminho do aeroporto, recebeu uma ligação de uma vizinha. Sua filha fora vista em uma região um tanto distante de casa e pouco convencional. A moça, preocupada, achou melhor avisar. Com o coração disparado, sem poder desistir do vôo na última hora, tomou as providências possíveis. Ligou chorando para a mãe, que pegou o primeiro avião para vir ficar com a neta.

Os passageiros não notaram, mas foram horas de muita angústia e apreensão até que ela voltasse a ter notícias da filha. Apesar de tudo ter ficado bem, algo havia se quebrado.

A decisão foi difícil, mas ficar em terra firme se fez necessário. E ela nunca mais voltou a voar profissionalmente.

                                                    
Alguns anos se passaram, a filha cresceu e ela se descobriu uma mãe dedicada e hábil.

Durante a semana, acompanha incansavelmente a filha em suas atividades. Aos finais de semana, sempre está disposta para receber amiguinhas, inventar um passeio diferente, brincar no clube ou ir ao cinema. A gentileza, outrora dedicada aos passageiros, continua sendo uma de suas características marcantes. Está sempre disposta a oferecer uma carona, ajudar alguma outra mãe mais ocupada ou dar um conselho com seu enorme bom senso. É daquelas mães que provocam inveja (pelo menos em mim!), de tão adaptada e feliz que parece estar nesta função.

Outro dia, no entanto, confessou discretamente que tem se sentido um tanto inquieta, desfrutando da companhia de uma grande barra de chocolate com bem mais freqüência do que gostaria. Disse não saber exatamente porquê, já que, aparentemente, está tudo bem com sua filha, seu marido e sua família. E concluiu, cabisbaixa, que talvez fosse TPM. E que, em breve, sua inquietude e ansiedade iam passar...

FIM.


                                                                         ***


Depois que são mães, as mulheres ganham muitas coisas. E esses ganhos são extremamente valorizados e falados por todos ao redor. Na nossa sociedade, uma mulher com filhos é vista como alguém realizada que, de alguma forma, cumpriu seu grande papel existencial. E, por isso, só pode se sentir feliz e completa.

Dentro desse contexto onde só a felicidade pode existir, o que as mães fazem com os sofrimentos que a maternidade lhes traz? Com as novas e difíceis decisões que se apresentam diante delas depois que têm filhos?

Se perguntarmos a elas se vale à pena, muitas vão dizer que sim. Mas esse fato não anula a dor das perdas e despedidas que elas tiveram e têm que enfrentar diariamente. E que, muitas e muitas vezes, não são reconhecidas por aqueles que estão ao seu redor!

Para o mundo seguir seu curso, uma mulher tem que aceitar se perder um pouco de si mesma para se tornar uma mãe. Muitas vezes, faz isso no escuro, sob a ilusão de que é um caminho natural. Tantas outras já o trilharam, não é mesmo? Por quê comigo seria diferente?, pensam confiantes... E sofrem sozinhas e envergonhadas diante dos obstáculos que vão encontrando à sua frente.

Quando é que esse mesmo mundo aprenderá reconhecer e amparar a dor dessas mulheres, ao invés de ignorá-la ou chamá-la de fase ou loucura? (ou talvez de TPM, mais politicamente correto).

Quando é que esse mundo vai poder tolerar olhar para a maternidade de forma menos maniqueísta, aceitando-a como um caminho de alegria e dor, felicidade e tristeza, perdas e ganhos, construção e destruição?

Me dou conta que não existe FIM para a história desta mulher que eu contei acima e de tantas outras na mesma situação. Felizmente, penso que pode existir o COMEÇO de uma nova história que, com empenho e coragem, poderemos escrever...

Esse texto é uma homenagem a essa corajosa mulher que abriu mão dos céus e das belas paisagens do mundo para acompanhar o crescimento de sua filha aqui em terra firme. E todas as outras também que, com a maternidade, tiveram que abrir mão de sua carreira, do trabalho, do corpo esbelto, dos olhos sem olheiras, das viagens, de sonhos, de amores, de manhãs preguiçosas, de tempo, de paz e da tranqüilidade de poder cuidar somente de si mesmas. E que, com mais frequência do que gostariam, se lançam culpadas sobre barras de chocolates e potes de sorvete, chorando escondidas as dores que não sabem nomear. Que, como eu, amam os filhos com toda sua força, mas não deixam se perguntar todos os dias, o que fazer para encontrar, de novo, um pouco de espaço para si mesmas...

Isabel Coutinho é psicóloga, mãe de 2 filhos e autora do livro MÃE EM CONSTRUÇÃO: reflexões, angústias, desafios. Dash Editora.

Texto publicado originalmente em http://www.in-possiblewoman.com/perdas-de-mae/